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Crônica – Quer trocar de anjo da guarda? Pergunte-me como!

Quarta-feira, sala de estar. Um típico fim de noite, com TV ligada pra desestressar, e à minha frente um kit de tarraxas novas para parafusar no violão. Era mais ou menos final do ano de 2005.

Lutei por mais de uma hora com parafusos minúsculos que resistiam à faca que fazia a vez de chave de fenda. Logo deu meia noite, e vi que não era só meu violão que estava com parafusos a menos. Surge na minha frente o programa de fim de noite de uma TV aberta. O tema era:

“TROQUE SEU ANJO DA GUARDA!”

Fiquei ouvindo quase feito curiosidade meio mórbida, como fazem as pessoas que param na rua pra ver acidentados. Eu sabia que o programa era uma desgraça, mas assisti ainda assim. O apresentador era um pastor que falava como um pregador famoso e dono de concessão de TV. Citando os textos de Daniel 10 e Salmo 91, afirmou que existem anjos fracos e anjos fortes. O profeta Daniel teria um anjo do tipo fraco. Esse mensageiro divino raquítico e franzino foi despachado para a Terra assim que Daniel começou a orar pedindo uma “luz”.

Mas o Príncipe da Pérsia, um demônio experiente e mestre em capoeira, surgiu na sua frente. Como todo ser maligno, ele impediu a passagem do pobre anjo e o chamou para a briga. O anjo peso-pulga não dava conta sozinho da potestade, e a briga durou 21 dias. Até que chega um anjo mais poderoso para ajudá-lo, Miguel.

Juntos, eles dão um chega-pra-lá na potestade da malandragem, e o anjo molenga é liberado para entregar sua mensagem a Daniel. O pastor continuou, dizendo que a Palavra de Deus nos manda dar ordens aos anjos a nosso respeito. E onde estariam os anjos fracos? O pastor respondeu! “Talvez o seu anjo esteja lá no céu, cansado, só tocando harpinha, e não briga por você! Troque de anjo, e sua vida irá mudar!”Meus risos de deboche deram lugar à indignação enquanto pessoas ligavam desesperadas para o programa, com problemas no casamento e outras dores humanas.

E qual era o conselho do pastor? “TROQUE SEU ANJO DA GUARDA!”.

Meus amigos mais chegados sabem que sou dado a surtos de impulsividade quase inexplicáveis. Indignei-me com todo esse engano, e decidi ligar para o programa. Não para bater-boca, mas para lançar questionamentos na cabeça dos espectadores.

“Espera um pouco que tem 2 pessoas na sua frente!”, disse o atendente do telefone, enrolado com mil ligações. Aguardei na linha durante uns minutos, até que percebi que estava ouvindo no telefone os mesmos sons saídos da TV. Havia chegado a minha vez de falar ao vivo.

– Alô? Qual é o seu nome?
– Cláudio!
– Você fala de onde, Cláudio?
– Do Portão [bairro de Curitiba].
– E aí, você quer trocar de anjo?
– Não sei, Pastor. Eu li esse salmo que o senhor citou, o 91, e o que diz lá é que DEUS é quem dá ordens aos anjos a respeito de alguém, e não a gente.
– Mas veja bem. A palavra de Deus é clara: “Dará ordens aos anjos a teu respeito! É você que dá ordem a eles!
– Eu nunca ouvi falar disso na vida, pastor!
– (Rosto de satisfação) Olha, é o que a Palavra está dizendo! Existem anjos que estão cansados, fracos, e acabam não cuidando da gente! Nós precisamos trocar de anjo. E precisa ser por um anjo tipo Miguel, bem forte e poderoso!
– Mas se os anjos estão fraquinhos e não estão mais cumprindo o serviço deles, isso é egoísmo e pecado. E os anjos que pecam viram demônios! O que eu faço? Meu anjo da guarda vai virar meu demônio da guarda?

– Não, meu amigo! Vou explicar! (folheia a Bíblia procurando um [pre]texto bíblico)

E tome mais explicações descabidas. Uma moça testemunhou que já demitira seu anjo da guarda antigo e que estava satisfeitíssima com o seu novo Arcanjo Zero Km.

Contive minha impulsividade para não atribuir essa conversa louca ao efeito de alucinógenos. Continuei manifestando minhas dúvidas-certezas, até que ele encerrou:

– E aí, você vai estar com a gente nessa quinta-feira na Catedral da Fé pra trocar de anjo?
– Não sei, pastor. Não sei…
– (Riso leve, e um ar de complacência) Você é quem sabe. Um abraço! Deus te abençoe!
– Amém, Pastor!
Senti vergonha de ser chamado de evangélico. De ser contado como “farinha do mesmo saco” que eles. Pelo menos Deus se entristece mais que eu. É a vida dEle que eles transformam num circo.

E de repente me vi num espelho. Um cara que não dá ouvidos para absurdos como trocar de anjo da guarda, mas que também não se oferece para ser o mensageiro de Deus para estes pequeninos. Gente cansada, oprimida, destruída. Que falta faz um anjo! Anjos cuja força vem de uma vida gasta na fé e no amor. Anjos que levem perdão, consolo, oração e choro pelo erro e suas consequências.

Eu deveria ser esse anjo, mas sou fraco. Frequentemente me pego vivendo só pra mim e não percebo pessoas desesperadas como as que ligam para programas de TV, apenas para serem ouvidas por alguém que não sabe do que está falando. E pra um desesperado, quem tem um ouvido é anjo. E um anjo “forte”. Mesmo que este tenha uma idéia bizarra sobre o que é cristianismo.
Incrivelmente, isso não foi o que mais me incomodou no momento. Apenas a teologia distorcida me machucou os ouvidos.
Coloquei as novas tarraxas no violão, e o som saiu desafinado. As cordas ainda não acostumaram com o novo sistema. E assim como neste triste caso entre cristãos sérios e estelionatários da fé, a culpa da desafinação não é só das tarraxas novas. É de quem deixou as antigas tanto tempo quebradas.

Cláudio Sant’Ana